Devo estas Operações à imersão nas elipses,
volutas, conchas e espirais das capelas de Nossa Senhora do Rosário
dos Pretos e de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Há
cerca de seis anos, nos momentos de ócio, comecei a experimentar
variações do bombardeio reticular da optical art, através
do uso do software gráfico CorelDraw. Progressivamente, fui
me convencendo que, para não descambar para a mera ilustração
e para o esteticismo, tais criações impunham: a) a visualização
dos cálculos realizados pelo software, cujas escalas transitam
sem embaraço entre o milésimo de milímetro e
a altura de um edifício de 15 andares; b) a tentativa de expressar
nossa formação histórica sulcada por contrastes
e contradições; c) a recusa ao que José Guilherme
Merquior qualificava como o “gratuito cinetismo da optical art”(1).
Daí o choque das capelas mineiras.
A complexidade da matemática ampliara-se imensamente durante
o barroco. Mesmo com eventuais atrasos, o par de capelas de Ouro Preto
aclimatava ao Brasil tais avanços matemáticos, com uma
veemência que era muito mais atualizada do que as posteriores
simplificações neo-clássicas.
operações
O
maior trunfo do desconhecido autor da capela de Nossa Senhora do Rosário
dos Pretos foi a resolução da planta, uma complexa composição
de três elipses intersecantes, derivada das criações
de Francesco Borromini. No interior dessa capela há dois balcões
iguais e simétricos, um em cada lado da nave. Sob cada um desses
balcões há uma rocalha esculpida em pedra. No interior
de cada uma dessas rocalhas, repete-se o seu próprio contorno
externo, em escala reduzida; e no interior dessas rocalhas menores,
o mesmo contorno aparece. Isso sugere uma progressão fixa que
se contrairia ao infinito. A capela de São Francisco de Assis
foi concebida, construída e decorada por Antonio Francisco
Lisboa, o Aleijadinho. Foi rematada por uma perspectiva sottinsù
(de baixo para cima), pintada no teto por Manoel da Costa Ataíde.
Como nos exemplos anteriores do barroco europeu, essa perspectiva
“abriu” a construção para um céu
teatral, o que converteu o espaço interno num abismo ascendente.
Análises recentes mostram alguns desencontros no projeto de
Aleijadinho. Myriam Ribeiro de Oliveira aponta, com argúcia,
a oposição entre a massa arquitetônica “robusta
e dramática” e a decoração da portada,
“frágil e delicada”(2). Mas mesmo tais discrepâncias
ampliavam a expressão das volúpias matemáticas,
em vez de invalidá-las.
Por tudo isso, estabeleceu-se uma conexão entre essas duas
obras-primas da arquitetura colonial brasileira e as vertiginosas
possibilidades do software utilizado. Uma conexão mediada pela
consciência de realidades históricas distintas.
No universo intelectual pós-tridentino (que abrange o barroco
e o rococó brasileiros), cada objeto artístico era único,
irrepetível, encerrando segredos aprimorados ao longo de uma
existência dedicada ao artesanato. Ao fim, o conjunto da obra
de um artista era como uma vasta e reverente oração
entoada com a perícia das mãos. Neste quadro, a sugestão
de infinitude era a concretização de uma técnica
encarada “como a ocasião para a manifestação
da razão e da providência divina”(3).
Agora, nestas Operações, as obras são geradas
a partir de comandos e impulsos eletrônicos, sem suporte material.
Essa origem esvazia qualquer reverência. E faz com que a infinitude,
simulada pela precisão sub- milimétrica do software,
manifeste-se na dispersão das obras através de infovias
ou nas impressões em escalas e qualidades variadas. Não
há reprodução e nem matrizes, somente parâmetros
de visualização e impressão submetidos às
possibilidades dos hardwares. Por isso, neste “catálogo”,
não estão estampadas reproduções de obras,
mas as próprias obras. Essa concepção remete
à série “firulas eletrônicas”, do
artista plástico Cláudio Boczon, concebida diretamente
no computador, distribuída via e-mail e dependente dos recursos
disponíveis para ser vista (das “firulas eletrônicas”
empresto a nomenclatura “visualização de algoritmos
eletrônicos através de dispositivo de saída”).
Algumas destas operações não estão isentas
de metáforas sugeridas pela imagem da mulata saudada por anjos
morenos no teto da capela de São Francisco de Assis (a modelo
seria a mulher de Manoel da Costa Ataíde). Outras obras buscam
esgarçar o princípio que gerou a citada rocalha esculpida
na capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Algumas das
obras foram pensadas como balaios, na tentativa de conectar contraditórios
extremos históricos e tecnológicos.
Agradeço a Cláudio Boczon, cujos conselhos ajudaram
a decidir quais seriam as obras aqui apresentadas. Agradeço
também às sugestões pacientes de Manoel Coelho,
Claudia Taborda Dudeque e Kalissa Pequito dos Santos.
Irã
Taborda Dudeque (outubro/2003)
(1)
MERQUIOR, José Guilherme. Sentido e problema do pop: pop e
hiperrealismo. In. Formalismo & tradição moderna:
o problema da arte na crise da cultura. Rio de Janeiro: Forense Universitária;
São Paulo: Edusp, 1974, p. 295
(2) Myriam Ribeiro de Oliveira. Reavaliação do barroco
mineiro (1994); Barroco e rococó em São Francisco (1996);
in MENDES, Nancy Maria (organizadora). O barroco mineiro em textos.
Belo Horizonte: Autêntica, 2003
(3) Projeto e Destino, in ARGAN, Giulio Carlo. Projeto e destino.
São Paulo: Ática, 2000, p.37