Uma
rabeca, uma viola de cocho, um adufe, uma viola de fandango não
tem espaço no mundo musical transmitido pelas emissoras de
rádio e TV, e raramente conseguem furar a barreira comercial
das gravadoras de disco. São instrumentos que ficam restritos
a atuar nas festividades religiosas do local, ou nas manifestações
folclóricas.
O meu interesse em pesquisar a construção deste instrumento
reside em tentar documentar um aspecto de nossa cultura musical
que se encontra confinado a seus lugares de origem. Para o pessoal
de Paranaguá, a rabeca é um instrumento como qualquer
outro. Para nós, que não convivemos com as manifestações
culturais daquele povo, a rabeca é um instigante motivo de
curiosidade.
O que mais me chama a atenção e aguça mais
e mais o meu interesse, é a ausência de padronização
na construção das rabecas. Ao contrário dos
instrumentos convencionais, a rabeca não tem um tamanho padrão,
não tem um formato padrão, nem mesmo um número
de cordas e afinação padronizadas. Construir uma rabeca
é retirar a caxeta do mato, verificar como estão os
veios da madeira e criar; sim, utilizando uma forma desenhada, mas
adaptando esta forma às características da madeira.
Cada rabeca tem traços personalizados, o que a torna única.
A não-padronização convida à criação.
Nós, seres sociais, não estamos acostumados a aceitar
os não-padronizados. Para nós, o que já foi
testado e aprovado é o que vale, é o que nos dá
segurança. Estamos no reinado das fórmulas e métodos,
triste. Nada mais pobre do que a nossa realidade. Quando se percebe
algo que fuja a esta realidade, não dá prá
ficar quieto no cantinho. Então eu até virei fotógrafo.
Com modelos maravilhosos como esses foi fácil e emocionante.
José
Eduardo Gramani