Um mundo
em conflito: político, econômico e ideológico.
Mas essa disputa vai muito além disso. Chega a ser existencial.
O homem contemporâneo, que é o soldado desta batalha,
está submetido a diversas forças opostas que o torcem
e o esticam até o seu limite. Necessidade de sucesso, de dinheiro,
tempo perdido no trânsito, competitividade, tudo isso são
fatores que amarram e massacram o homem moderno. E enquanto ele se
esforça diuturnamente para ser alguém integrado ao sistema,
esse homem é bombardeado por propaganda, que vai da cerveja
até a propaganda de um modo feliz de viver. Tudo é mercado,
tudo está à venda, do nascimento à morte, e mesmo
após ela, pois o comércio religioso promete recompensas
que são pagas adiantadas em dinheiro.
Fragmentado e fragilizado, este homem moderno já não
tem princípios, linhas ideológicas, é um náufrago
tentando segurar-se em alguma tábua à deriva, e principalmente,
esse homem não tem identidade, é um anônimo. Com
o passar dos anos, percebe que todas as promessas que lhe são
feitas pela sociedade são mentiras. Deste vazio existencial
vem o sofrimento, a constatação de que não passa
de um número, e que se acaso desapareça, a máquina
social se encarregará de fabricar alguém ou algo, igualzinho
ao que se foi.
Mas além deste vazio de se saber um anônimo, surge no
homem desiludido e descrente, uma necessidade de mudança, de
construir-se algo, de pertencer a alguma coisa. Esse ser humano não
quer entregar-se passivamente à grande máquina de embalar
almas, a rebelião instaura-se no seu peito, e ele reage. Busca
para esta empreitada heróica de apenas querer viver, um aliado.
O único possível é um igual a ele, que também
quer desesperadamente simplesmente viver. O homem busca o seu sinônimo,
busca ser apenas um homem. Para isso ele tem de construir-se, deixar
de ser um anônimo, pensar, criar, e não apenas obedecer.
Construir e às vezes destruir para recriar.
Guido Viaro
Escritor/Cineasta

Mãe